quinta-feira, 31 de maio de 2012

Ezequiel Morales


Para quem não é do meio, essa foto é do Ezequiel Morales que ganhou o IM Brasil. Argentino, vive no Brasil junto com a esposa, a triatleta Maria Soledad Omar.

Ambos são muito queridos e sempre gosto de dizer que são o que há de melhor na elite do triathlon no Brasil. Não apenas em razão dos resultados, mas porque o adjetivo "elite" só lhes cabe dentro da prova : treinam onde qualquer um treina, são acessíveis e não furam fila para retirar o kit ou entrar na área de transição.

No último domingo, todo mundo estava torcendo por um brasileiro, mas o Ezequiel foi efusivamente aplaudido por todos que estavam esperando a vitória do Santiago - aliás, inquestionavelmente outro grande caráter.

As vezes fico irritado com as barbaridades que vejo no Brasil, mas uma das coisas que me enche de orgulho é dizer que esse país é uma nação aberta.

Recebe atletas, mas também trabalhadores de outros países que procuram emprego e trazem suas famílias, tendo acesso ao sistema de saúde e as escolas públicas como qualquer outro cidadão brasileiro, sem discriminação.

Agora, aqui entre nós: sou eu que ando chorão ou essa foto deu um nó na sua garganta também?

terça-feira, 29 de maio de 2012

Failling and Flying


O texto é uma tradução livre (assim como rápida e imperfeita) do discurso realizado por Jordan Rapp, por ocasião do banquete de premiação do Memorial Hermann Ironman Texas 2012, realizado no dia seguinte a prova.

Agradeço muito ao Caio Fontes pela indicação do texto.

Gostei tanto que resolvi compartilhar com todos com o mesmo espirito de amizade que ele compartilhou comigo.


Jordan Rapp

Eu tenho que fazer o discurso na minha universidade em três semanas e dadas as semelhanças temáticas entre o encerramento de 12 anos do curso e um Ironman - ambos parecem levar uma eternidade - espero que não se importem se eu testar um pouco o que planejo para a minha fala hoje, aqui, para vocês.

Uma das coisas que sempre me impressiona sobre os atletas do Ironman é a incrível variedade experiências que é possível encontrar em cada um que faz a prova, não apenas em relação ao caminho tomado para alcançar a linha de largada, mas a incrível variedade de atividades e interesses que não se relacionam diretamente com a prova. Então, felizmente, eu não me preocupo muito em fazer um discurso baseado na mitologia grega. No entanto, uma vez que muitos de vocês podem estar um pouco longe da sala de aula, eu prometo dar uma breve introdução sobre o assunto.

A história de Ícaro é geralmente contada como uma advertência contra a arrogância. Pai de Ícaro, o mestre inventor Dédalo, criou dois pares de asas de penas e cera. O plano era usar estas asas para escapar da ilha de Creta, onde estavam sendo mantidos prisioneiros pelo rei Minos. No entanto, sendo feitas de cera, as asas eram relativamente frágeis - e eu duvido que eles teriam sobrevivido muito aqui ontem - para o que Dédalo instruiu seu filho para não voar perto demais do sol, o que poderia fazer a cera derreter.

Como se pode esperar de um jovem que quer voar, o aviso não fez efeito e, uma vez no ar, Ícaro voou perto demais do sol, a cera derreteu destruindo as asas e Ícaro caiu para sua morte.

A lição é simples - o homem precisa ter consciência de seus limites. O homem não foi feito para voar como os deuses. O lugar do homem é com os dois pés firmemente plantados no chão. Seja humilde. Et cetera, et cetera, et cetera.

Mas o poeta Jack Gilbert tem uma opinião diferente sobre o assunto. Como ele diz na linha de abertura "Failling and Flying", "Todo mundo esquece que Ícaro também voou." E ele está certo. ICARUS VOOU! Como impressionante é isso? Não é incrível que ele tenha deixado a terra e subido ao céu? E todos - TODOS - que entraram em Woodlands Lake ontem temos uma relação com isso. Mesmo que você não tenha terminado. Mesmo se você tenha ficado aquém de suas metas. Mesmo que você tenha tido uma "prova ruim". Mesmo que você tenha "falhado" em tudo o que se propôs a fazer.

Você se atreveu a sonhar. Brevemente, você voou. E ninguém pode tirar isso de você. Certamente houve momentos em que você não se sente voando. Indo contra ao vento. Assando sob o sol. Acho que todos nós desejávamos sombra, ainda mais do que Ícaro poderia ter. Para aquelas pessoas que lutaram vigorosamente todos os dias e ainda não conseguiram chegar até a meia-noite, não posso sequer imaginar como é esse sentimento. Eu não acho que você tenha se sentido como se estivesse voando.

E mesmo para nós que atingimos nossos objetivos, todos nós tivemos nossos momentos de dúvida. Eu sei que tive. Eu nunca esperava entrar em T2 e ouvir, "você está 12 minutos e meio para atrás do lider." É muito quente. Isso é muito longe. Eu estou cansado. Eu quero ir para a cama. Eu não quero mais correr, eu só quero uma cerveja. Não há nada como um Ironman para fazer você questionar sua decisão de tentar o impossível. Talvez os pessimistas estivessem certos. Talvez os nossos pés pertençam o chão. Talvez 140,6 quilômetros de natação, ciclismo e corrida - sim, tudo em um só dia, para responder à pergunta freqüentemente feita - é simplesmente soberba. Para os veteranos, talvez tivéssemos tido sorte antes. Para os iniciantes, você deveria se perguntar: "que diabos eu estava pensando?" Eu realmente não me lembro muita coisa do meu primeiro Ironman. A maratona ocupa cerca de 26,2 milissegundos - na melhor das hipóteses - no meu cérebro. Mas estou certo de que eu me perguntei, "quem decidiu que isso foi uma boa idéia? Como isso pode ser verdade que isso seja mesmo legal?" Quero saber isso agora, especialmente quando olho para os meus pobres dedos. E talvez isso seja um sinal de que Ironman não é algo que se realmente estejamos destinados a fazer. Eu acho que minhas pernas certamente concordariam com essa afirmação. Mas, para citar o grande Jens Voigt, "Cala a boca pernas!"

E eu não acho que isso é verdade. Eu acho que nós fazemos o Ironman pelas mesmas razões Ícaro voou perto demais do sol. Nós queremos ver se nós podemos. Queremos saber o que somos capazes. Nós queremos ignorar todas as advertências e descobrir por nós mesmos. E sempre que eu cruzar a linha de chegada, eu * SEI * que aquilo é o que estava destinado a ser feito. E quando eu vejo todos os outros cruzando a linha - não importa que hora o relógio mostra - é bastante claro que eu não estou sozinho nessa crença. Há algo de extraordinariamente elegante a declaração simples de Mike Reilly, "VOCÊ. SÃO. um Ironman.". Embora agora eu tenha certeza que ele gostaria de poder reduzi-la a apenas dois ou três palavras depois de ter dito isso algumas milhares de vezes ontem.

Eu sou um Ironman. Vocês todos são Ironman. E não importa como o seu dia se desenrolou, eu acho que Jack Gilbert resume muito bem com a linha de fechamento desse mesmo poema, "Eu acredito que Ícaro não estava falhando quando ele caiu, mas só chegando ao final de seu triunfo." E a todos com uma pulseira azul, eu espero que você se sinta da mesma maneira. Ainda que eu deseje que o tempo na rampa de chegada dure para a eternidade, em algum momento, eu sei que é o fim do meu triunfo. E isso, eu acho, é o que nos mantém sempre voltando e querendo mais...

sábado, 19 de maio de 2012

Ironman do Texas 2012

Ontem foi prova do IM do Texas. E vou começar dizendo o seguinte: lembram quando eu disse que tinha lido tudo sobre a prova? Pois bem, quando forem fazer uma prova no exterior, desconfiem até quano alguma coisa for repetida em vários lugares da Internet.

Bem, vocês vão entender...

Como de praxe, coloquei três despertadores para tocas as 3:30 da madrugada. Sempre acordo sozinho, mas melhor não arriscar.

Tomei um café muito leve, com pão e mantega de amendoim. Eu sei que tem gente que diz que come macarrão antes da prova para garantir um estoque de carbo ainda maior. Entretanto, pelo menos no meu caso, quando vou nadar em dia competiçao no mar, volta tudo.

O clima da prova é, como se poderia esperar, ótimo! O narrador esta longe de ser esses tipos xaropes e a musica de fundo que escolheram antes da largada foi um som do AC/DC.

Eu coloquei a porcaria speedsuit, que não importa o quanto de vaselina eu use, sempre me detona o pescoço - não vou falar a marca, mas que da vontade de começar a falar sobre isso, dá!

O Rodrigo pediu para fica na frente e aberto. Como a natação tem inicio dentro da água ( e, nossa, que água quente!) me posicionei bem na frente - tanto que cheguei a ter medo de ser atropelado.

Dada a largada, sai forte e claro que tomei muito tapa, principalmente nas pernas. Só que, poxa, sabe que não foi muito diferente de ter largado no meio, mais atrás? De um jeito ou de outro, gente apanha de qualquer jeito mesmo!

Eu só não me conformo com o fato de que eu nunca dei "bulacha" em ninguém. Eu olho em volta a cada respiração e se tiver alguém colado, encurto o braço.

Difícil isso?

Rapidamente as pessoas foram encontrando espaço e a natação se desenvolveu mais tranqüilamente. Tudo que tinha que ser feio era nadar reto até o fundo do lago, voltar, entrar em canal e terminar aí - tudo otimamente sinalizado com bóias (o que me faz questionar também o motivo das pessoas pararem de nadar para acertarem o caminho, já tudo que precisam fazer é nadar reto!)

Depois de um começo forte, entrei em velocidade de cruzeiro. Mas no Iron a natação é tão longa que percebi que tenho problemas de concentração - me peguei pensando que o Pink Floyd poderia voltar a tocar ou quem tinha sido eliminado no American Idol nessa semana...;-)))

Para evitar isso, escolho alguém que esteja nadando como eu e tento acompanhar o ritmo. Serve para me deixar ligado e forma uma referencia de posicionamento dentro da água.

Isso da certo"médio", pois sempre entra alguém no meio e bagunça tudo.

Como tinha dito, a entrada no canal, que é pequeno, mas limpissimo, embolou as coisas porque compactou todo mundo. Me virei do jeito que pude e fiz uma natação com o tempo alto, na casa de 1:22. Mas acho que, sem wetsuit, acho que é isso mesmo, sabe? Nadar lugares sem correnteza, contra ou a favor, não deixa vc mascarar o jeito que você nada. No IM do Brasil, as pessoas estão um tanto que expostas ao mar e para a maioria o desempenho lá vai depender disso.

Mas sai da água sem olhar o tempo - e sem chip também. Mesmo tendo colocado um alfinete para reforçar o velcro, na pancadaria o dito cujo foi embora. Eu não tinha visto, mas a organização da prova, sim. Em três palitos eles me deram um chip novo. Bacana a agilidade.

Sai para pedalar com um monte de bike na ainda transição, mas obviamente isso nunca é uma boa medida do desempenho na água, como depois a gente vê.

Peguei capacete e sapatilha (lá é proibido deixar a sapatilha clivada no pedal) e logo no inicio percebi que tinha feito o reconhecimento no lugar errado. Mas foi muito melhor do que eu tinha imaginado. O piso é de concreto e relativamente plano ou em descida. É como se vc tivesse pedalando em um rolo de forma bem macia, mas também muito rápido. Vou chutar aqui um pouco, mas acho que nos primeiros 40k você faz 42km/hora sem esforço.

Sério.

Mas tinham dito que no IM do Texas o ciclismo é plano e muito rápido, né? Que o problema é a corrida, né? Muito calor e umidade, né?

Bullshit!!!!!!!

Quando vc sai dessa área mais urbana e começa a entrar na área rural, o piso muda para asfalto com cascalho. Vocês já viram? O cascalho não é solto, mas fica misturado com piche.

Nesse ponto o trafego aumenta e, sim, há carros e caminhos que checam a invadir a faixa de rolamento para as bifes. A gente reclama aqui, mas é bom dizer que lá também rola esse tipo de coisa.

Começa o vento, mas logo se entra em área de bosque. Linda para olhar, mas para o pedal tá longe de ser molezinha. Seja porque o piso é ruim, seja porque começa a ter um sobe e desce que quebra sua velocidade. Consequentemente, há sempre um esforço de retomada que vai te drenando aos poucos.

Aí você sai e vai encontrar novamente o asfalto com cascalho em grandes longões. E começa o vento.

Esqueça a sua noção de vento amigo!

O pior vento que já peguei foi o do 70.3 de Miami, que basicamente foi quase todo lateral.

No IM do Texas você pedala com um vento lateral absurdo, tão ou mais forte que o de Miami. Mas olha só o que acontece.

Suponha que seja um vento lateral "noroeste" da direita para a esquerda. Aí, lááááá na frente, você entra em uma estrada e vai ter que dobrar justamente á direita, indo contra o vento.

É inacreditável o número de vezes que isso ocorre!!!!

E as estradas são aqueles longos retões com sobe e...sobe! E o piso é aquele lá, de asfalto e cascalho. De repente vc entra na área das fazendas e vê aquele cenário desolador de filme americano.

E o vento contra! Sem exagero, vc chega a pensar que os caras bolaram o trajeto da prova pra que o vento sempre ficasse sempre desse jeito!

Nesse sentido é completamente diferente de Floripa. Apesar de haver vento também fora da orla, a gente sabe que a coisa pega mesmo ali, naquela área dos túneis. Mas o vento ora te segura, ora te empurra.

No Texas, não. Você tá de frente com a ventania todo o tempo. E não tem p@&#*a de percurso plano tal como te venderam, não....(rsrs)

Quando termina esse asfalto ruim, o desgaste já te deixa mais fraco e o sol a pino começa a te desidratar. E não tem porcaria nenhuma que vc beba que segure a onda.

E também começa a bater um cert receio de vc comer algo com aquele calor e te dar algum revertério. Acho que a ultima coisa que a gente quer nessas horas é ter problemas de estômago.

Só sei o seguinte. Quando olhei no relógio para tentar me alimentar, eu tinha feito 3:15 e já tinha quebrado. Mesmo quando voltamos para o trecho urbano, que é maravilhoso para pedalar, eu não conseguia mais fazer forca.

Como eu pedi para furar um pneu ou coisa do gênero!!! Uma rampa pra mim dava vontade de descer da bike e empurrar.

No finalizando, que tinham me falado que era uma descida, eu pensei em desmanchar novamente. Mas não tinha força para isso.

E cadê a área de transição? Não chegava nunca!! Psicologicamente aquele pedal tinha acabado com a prova.

Fiz uma transição demorada porque fiquei ingerindo liquido, tentando me recompor. Então sai para fazer a parte que mais gosto! A estratégia do Rodrigo era andar nos postos e correr entre eles. Só que logo no primeiro eu parei e fiquei minutos, horas, dias tomando hidrólito.

Meu estômago comecou a ficar estufado e a musculatura do abdômen estava muito enrijecida, começando a doer.

Quando eu corria, piorava. Para passar, eu tinha que beber mais, só que isso agravava ainda mais aqueles sintomas. Eu sentia uma "sede infinita".

O abdômen só fazia por piorar e tentei colocar gelo. Inútil.

Algo sólido? Nem gel. Pensei, como iria encarar uma maratona sem poder comer nada?

Comecei a andar e fiquei na expectativa de tentar correr novamente. Mas aí a minha mente me bloqueava.

No fundo, eu tinha colapsado.

E só de pensar em andar 42k era devastador.

Comecei a chorar e me perguntava porque aquilo tinha que ser desse jeito.

Tentava trotar. Parava dez metros depois. Tentava correr devagarinho embalado por alguém, mas nada funcionava.

Meu corpo não funcionava.

Depois de umas quatro horas de caminhada melhorei, mas a musculatura da perna estava fria e doía. De tanto tomar bebida com gelo minha garganta começou a doer e tive que procurar algo morno para tomar nos postos de hidratação.

Aí, naquele turbilhão de coisas que passou pela minha cabeça, entre desistir e ir até o fim, pensei que eu tinha que terminar.

Mas não era por uma questão de "superação", esse blá, blá, blá genérico. Eu tinha razões concretas para ir até fim.

Primeiro, e antes de tudo, porque achar que fazer um Iron andando "não vale" ou "não é a mesma coisa" é arrogante e desrespeita centenas de amadores que fazem um Iron dentro das suas possibilidades. Eu sou um amador e não me julgo a ultima bolacha do pacote para achar que "ah, se é para fazer assim, melhor pegar um avião e ir para casa".

O segundo é que que eu merecia a medalha, senão pelo esforço de fazer 14 horas de prova, pelo fato de ter me dedicado demais aos treinos todos os dias nesses ultimos meses. Isso não conta?

Por ultimo, não queria chegar no Brasil com um monte de tralha do Iron porque eu tive dinheiro para comprar. Eu queria ter o uniforme oficial do IM do Texas porque tinha feito a prova.

Obviamente, tudo isso foi muito doloroso. As vezes eu pensava que alguém poderia estar acompanhando pela Internet vendo que decepção toda era aquela. Eu que sempre conseguia evoluir de ano para ano, tinha as melhores perspectivas em 2012, agora estava caminhando entre os postos de hidratação.

E, antes que o Ulisses me pergunte (rsrs), não vi pelotão na prova inteira! Você olhava na estrada e via uma fila indiana de quilometros. Andei com um grupo dentro do bosque, que se formou ali porque o pedal ficou lento e a estrada era estreita. Mas nem era possivel tirar qualquer vantagem do vacuo naquele trecho. Acabou, cada um seguiu o seu caminho.

E outra coisa me deixou de queijo caído. Na corrida, tem apenas um ponto de marcação. Todos respeitam os pontos de retorno e não tem pulseira contando primeira e segunda voltas. Eu ventava terminando a terceira volta e varias pessoas indo para a segunda exaustas. Parece inimaginável que alguém possa roubar uma volta e, portanto, "fiscalização" é uma coisa que carece de sentido aqui.

Bem, na chegada, você passa por um corredor largo e as pessoas do lado de fora te estendem a mão como se estivessem ali desde de o momento em que passou o primeiro colocado, apenas para te cumprimentar. Ainda com as pernas frias consegui trotar e entrar no clima da chegada. Eu e um mexicano, que deu um espetáculo a parte pulando junto a cerca para bater na mão de todas as pessoas que estavam acompanhando.

Foi contagiante demais. Uma cena inesquecível.

Vendo aquele sentimento de felicidade bruta, me senti com vergonha de estar sofrendo pelo que aconteceu e não me estar feliz de estar cruzando o pórtico.

A alegria daquele rapaz me redimiu. E me salvou...

Quem estava nos aguardando era a Chrissie. Ela colocou a medalha em mim, eu disse "muito obrigado" em português, ao que ela retribuiu segurando firme meu rosto e me dando dois beijos.

Posso garantir que, comigo e com todos, não foi protocolar. A gente sabe quando um gesto é apenas formal.

Quando cheguei no hotel e havia 327 posts no Ironbrothers. Todos acompanhando a minha prova aqui. Me senti uma celebridade em meio aquele grupo de triatletas e, principalmente, de amigos.

Foi um dia muito duro, certamente o mais duro desde do momento em que comecei o triathlon.

Talvez essa "surra" tenha acontecido para que eu voltasse a origem, aos valores que eu, na intenção de querer sempre mais ano após ano, me esqueci.

Reaprender a ouvir com a devida atencao e cuidado "Você é um Ironman" foi o grande significado que levo desse Iron.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quase lá...

Bom, a prova é amanhã e já estou aqui matutando que vou ter que lidar com algumas coisas complicadas que eu não estava esperando.

Acho que fiz todas as coisas que tinha que fazer e tive uma boa semana. Em algumas noites, dormi muito mal porque fiquei um pouco tenso.

E um jeito ótimo de lidar com isso foi sair bem cedinho para correr meia hora, mesmo que que não houvesse apontamento planilha. Outra coisa foi usar o trigger point para trabalhar a musculatura e relaxar, além de me ajudar a passar o tempo, já pela primeira vez faço uma prova praticamente sozinho e não tem muito como sair para comer fora a noite ( eu não curto muito sentar em um restaurante sozinho).

E ainda bem que tem o supermercado aqui do lado. Pra mim esse tipo de lugar nos EUA é a Disney.

Se me perguntassem quem eu gostaria de levar para uma ilha deserta para passar a vida eu diria, na lata, "Tem a opção "supermercado"?" ;-)))

Amigo meu me pediu um monte de coisa para levar para ele. Aí, entre uns negócios pra bike, estava escrito "colgate".

Aí pensei que peça da bike era o colgate....

Obvio que era pasta de dente mesmo. Ele até já tinha comentado que pasta de dente nos EUA é muito diferente, mas achei que ele estava exagerando na coisa, sabe?

Mas, olha, queimei a língua! Até papel higiênico aqui eu tive vontade de levar...

E os preços? Comprei um protetor solar fator 100 por cinco doletas! Suplementos? Tem em todo lugar. Powerbar pros gringos aqui é commoditie.

E o hotel aqui também é show! Tudo a mão e tem uma recepcionista que parece...huuuummm, sabem aquelas mulheres que vendem aparelho de fitness na televisão, normalmente bem cedinho? As instrutoras?

Aquelas...:-))))

Se bem que nem tudo e bom nesse e sentido....

Hoje pela manhã a privada entupiu. Aí, não tinha nada no apartamento para enfiar na privada. Eu não quis pedir para a moça da limpeza porque tava com vergonha.

Fiquei sentado do lado da privada. Dava descarga, a bacia enchia e eu esperava esvaziar.

Mas acho que a densidade da coisa parecia concreto, porque não vencia? Quase tive cãimbra de tanto apertar aquela alavanca!

E, olha, serio, acho que gastei mais água naquela privada do que a organização do Iron com a prova inteira....

Como aquilo me deixou estressado! Eu que sair para nadar, tudo programadinho....

A privada enchia rápido, esvaziava devagarinho. E eu olhando o relógio...

Tentei coca-cola e nada. Aí olhei na pia e peguei o tubinho de Listerine. Taquei lá dentro.

Putz, o que a gente não faz, hein?

Pode ter matado um monte de bactérias, mas resolveu picas...

Aí não teve jeito. Eu tinha que falar com a recepção...

Tem um gordinho, que acho que é de origem mexicana, e que é a cara do eu amigo Daniel Hammada. Aí, sei lá, simpatizei com o sujeito e achei que era menos mal falar com ele...

Aí fiquei pensando em como explicar para alguém em inglês, que a privada tá entupida. Entrei no Google tradutor, escrevia de um jeito, tentava de outro...

Fiquei estressado de novo.

Bom, depois de mais meia hora fui lá falar com o "xicano". Só que quem vem me dar "gooood morniiiinnnnng"????

Pois é, esperei demais e ele trocou de turno com a recepcionista gostosa...

Cara...

Voltei para o quarto, tomei gel, sentei do lado da provada e dei mais 57 descargas...

Vamos em frente...

Mas fazer Iron no exterior não é tão complicado como eu achava que seria.

Facilita demais o fato de que os procedimentos são praticamente iguais em todo lugar do mundo.

Outra coisa é que você tem acesso a equipamentos e acessórios que, no Brasil, nem pensar! Isso é um problema porque bate uma ansiedade e você quer comprar tudo. Vai uma bolada...

No meu caso, aproveitei para comprar coisas que pouca gente conhece, como o ecco biom e material de compressão da compresssport. Na barraca do Ironman fiz um rápa em quase tudo dada a qualidade do material. Alias, não se compara em nada essa loja com a do IM Brasil, em que há poucas opções e, nossa, que caro é aquilo....

Fora da tenda do ironman tem as tendas das marcas, as "grifes" triatléticas. Vi todas!

A teve a "tenda genérica" do loja do Cid, da Inside Outsports. Vou exagerar se disser que no espaço que a loja dele ocupa há mais produtos que na expo do IM Brasil considerando todas lojas juntas?

Olha....

Eu ganhei uma mochila com jeito de mala de transição no kit do IM Texas. Acho que o kit do IM Brasil, que é bacana, principalmente pela camisa, poderia ter também.

Enfim, se você quer fazer uma prova fora, é uma ótima oportunidade para coisas novas.

Mas considere o seguinte:o dinheiro que se gasta somente com o transporte da bike, montagem e desmontagem, vai a inscrição para Dois Long Distances. Estou falando só da bike...

É assim. Infelizmente, não estou exagerando....

Bem, falando da prova, esta tudo certo. O Rodrigo me pediu para fazer alguns treinos no percurso

Confesso que minhas expectativas mudaram depois disso.

Explico.

O Iron do Texas é considerado um dos cinco mais difíceis no mundo, sobretudo por conta da natação e da corrida, já que o pedal é feito em um percurso relativamente plano.

Mas esses rankings são meio furados, porque eles se baseiam em médias. Como no ano passado foi o primeiro Iron aqui e muita gente fez a prova pel primeira vez, os tempos são obviamente mais altos.

Então eu achei as coisas um tanto exageradas. Mas eu exagerei no "dexageramento" se é que vocês me entendem...

A natação começa em um lago, depois vc entra em um canal e fecha a natação no meio da cidade. Bem, para o meu azar, as bóias ficam do lado esquerdo e eu não tenho respiração bilateral. Me senti péssimo no reconhecimento do percurso hoje. O Rodrigo tinha me pedido para sair forte pelo lado direito, aberto. Mas vou ter que rever isso...

Outra coisas é que o canal é meio estreito vai dar bode com tanta gente. E ele fica ainda mais estreito em algumas partes.

Isso me lembra aquele cara que faz a narração das provas do Ironman em kona, quando acontece alguma merda e ele diz com aquele vozeirão...

"Oh, it's not good".

A pedal é realmente para ficar deslumbrado com a paisagem. O percurso é feito em uma área totalmente reflorestada, em trechos com fazendas e outros dentro de bosques. O inicio é descida em uma estrada que não tem buracos.

Pois é, não tem buracos mas o piso tem ranhuras. No reconhecimento que fiz do percurso, apesar de plano, eu não conseguia deslanchar porque o concreto segurava a bike.

"Oh, it's not good"

A corrida é critica. É plana, mas o calor estará na casa dos 30 graus e a umidade será de, por baixo, 80%. E o sol é ardido. O pessoal do Staff fica com protetor solar para te lambuzar porque tem historias aqui de insolação na prova do ano passado. E fazem isso varias vezes no percurso. Pior que essa, dizem, só a corrida do extinto IM da China.

"Oh, it's not good"

Bem, agora vou arrumar minha nutrição e fazer um pouco de massagem.

Depois, dormir o que dá pra dormir e ir pra lá.

Para falar a verdade, não fico nervoso. Mesmo.

Mas só me sinto realmente em paz quando saio para correr. Porque aí não dependo de mais nada nem de mais ninguém, só das minhas pernas.

E do meu coração.

domingo, 13 de maio de 2012

Rumo a mais um Ironman

Fazer uma prova fora do Brasil é complicado. Não bastasse todo o trabalho que dá uma viagem internacional em termos de custos e logística, imagina fazer um Iron.

Pois é. Então por quê?

Vou dizer o motivo e alguns (ou muitos) podem achar que é realmente uma questão pueril.

O IM do Brasil em 2011, por tudo que aconteceu, foi tão especial que eu não queria estragar essa recordação com uma imagem de uma prova frustrante em 2012.

E essa prova foi especial porque em 2011 foi o fechamento de um ciclo.

Um ciclo que começou quando ouvi falar de triathlon pela primeira vez quando o Edú "PDF" Carvalho fazia aula de spinning com a gente, passando pelo momento em que conheci o Beto pedalando na Bandeirantes e ele me falou dessa coisa chamada "Ironman".

E contou ainda que o tempo do Iron mais rápido que ele já fez tinha sido 11:24.

Bom, pensei que se um dia eu fizesse um Ironman, eu gostaria de fazer esse tempo.

Simples assim.

Tudo bem, mas no primeiro Iron não se pensa no tempo. Não é o momento pra isso (teoricamente não é o momento pra isso :-))

Antes da prova em 2009 o Vinicius sentou comigo e com o Ronaldo Aguilar, ambos estreiantes e disse "Vocês estão vendo os caras ali na outra mesa?"

Na outra mesa estavam o Topan, o Léo Guimarães e o Bruno Goes.

Ai emendou "Eles sim tem que ficar ansiosos, porque eles tem planos e não podem errar. Já para vocês a questão é apenas completar a prova. Não tenho qualquer expectativa de desempenho em relação aos dois".

Ou seja, a grande estratégia para estreiantes em Ironman em cada modalidade, é:

Natação: In-Out
Ciclismo: In-Out
Corrida: In-Out

Ah, espera tem as transições! Ai é diferente.

T1 - Innnnnnnnn- Ooooouttttttt....
T2 - Innnnnnnnn- Ooooouttttttt....

Mas não há como escaparmos das nossas expectativas, não é?

Todo mundo diz que no primeiro iron a questão é terminar - e todo mundo que vai fazer a sua estréia diz "Hã-hã".

Isso é supernatural (rs).

Mas ai a prova acontece e as coisas são colocadas no seu devido lugar.

Quando levantei os olhos e vi 12:43 no pórtico de chegada pensei "Como alguém consegue fazer isso, 11:24????"

E, olha, como eu tinha treinado! Nunca me dediquei tanto a qualquer outra coisa na minha vida.

Ao ver aquele tempo, a distância entre a expectativa e o resultado real me deu um choque de realidade brutal.

Para ir além, eu escrevi que teria que me transformar em outra pessoa.

Não "outra pessoa" em termos de personalidade. Acho uma bobagem, mas uma bobagem daquelas dizer Ironman transforma o seu caráter.

O que faz as pessoas serem o que são é a forma como tomam decisões frente as adversidades, os valores que trazem da família, a cultura nas quais estão inseridas e como interagem com as pessoas e instituições, como a escola, a igreja entre outras.

O Ironman é apenas uma prova de esforço físico e mental. Achar que esse esforço forma caráter vem da mesma arvore de pensamento que vê no esforço físico não apenas um castigo, mas uma estratégia para redenção da alma.

Fosse isso verdade o Ironman podia virar programa daquele para recuperaçao social de presidiários.

Verdade, ué!!!! :-)

Eu fico com sono cada vez que leio que essa coisa de que colocar no currículo que o sujeito fez um Ironman pode dar emprego para alguém.

"Ser outra pessoa", tal como eu pensava, era no aspecto físico e atlético. E hoje mais do que nunca estou convencido que isso é verdade...

Bom, em 2010 foi o segundo Iron. Uma prova em que a natação foi muito favorável em razão da correnteza e corrigi a maioria dos erros do ano anterior.

E mesmo com um ano a mais de treinamento e quase uma hora melhor que 2011, cheguei a 11:48.

Claro que muito feliz, mas pensando que tinha dado tudo, tudo, tudo de mim. Tirar mais que isso para alcançar 11:24? Que jeito?

E 11:00 então?

Em 2011, mudei de coach dentro da mesma assessoria e passei a treinar como o Rodrigo Tosta, que começou a trabalhar sobre a base que o Vinicius tinha me dado.

Fiz uma prova em Caiobá que me deixou com um "será?" em relação ao IM de 2011. Mesmo com uma camara furada, ainda assim fiz quase 30 minutos a menos do meu melhor tempo lá.

Só que pouco depois tive uma lombalgia que me deixou afastado dos treinos por duas semanas, justamente no período mais critico dos treinos, que são os longos.

Além do mais, a lombar é um ponto critico para quem quer pedalar 180k.

Mas com a acunpuntura da Silvia e muita paciência e tato do Rodrigo, veio uma prova abaixo de 11 horas.

E de fato tinha me transformado em "outra pessoa". Quando comecei o triathlon tinha 95 quilos, mas quando cruzei o pórtico do IM 2011 em 10:51 estava om 80, além de uma configuração física totalmente diferente.

Estava tão esquálido e tão mais feio que o meu cachorro olhava pra mim e parecia ficar em dúvida se eu era o dono ou o irmão dele.

Móle, não....:-((((

Mas mal tinha terminado a prova, ainda tomando soro, uma voz gritava dentro da minha cabeça

"Não dá. Não dá. Não dá....e não dá. Chega!"

Pra mim, naquele momento algo tinha se encerrado. Eu queria um tempo e estava lá o tempo que eu queria.

Então por quê continuar? Onde eu iria encontrar motivação?

Mas seria "motivaçao" a palavra?

E como é engraçado isso! O Ironman é vendido com muito marketing, muita pompa e prestigio, mas ao mesmo tempo não deixa de ser uma prova dura como poucas são.

Só que "motivação" não funciona. Quando você está no seu melhor momento, achando que está no pace do Craig Alexander ou fazendo "aquela" prova de recuperação no melhor estilo Chrissie Wellington em Kona 2011, de repente você se vê andando quebrado entre os postos de hidratação olhando para chão.

E cadê aquela musiquinha do Youtube? Cadê aquele "Tú-tú-tú-tú..."????? Cadê aquelas cenas em câmera lenta??? E aquelas imagens de superação?

É, tem não! ;-))))

Eu precisava de um motivo, pois "motivo"e "motivação" são coisas diferentes.

Para muita gente o motivo de se fazer tamanho esforço é uma coisa insondável.Se não for retórica, tal como aquele discurso pronto que fala em "busca de superação", "colocar-se a prova" etc etc e etc., a maioria dos amadores poderia dizer com tranqüilidade: não sei.

Porque acho que pouca gente sabe mesmo.

O meu motivo mais aparente é apenas evoluir. Se me perguntasse o porque de tanto esforço para fazer 140.6 milhas uma vez a cada ano a resposta mais lúcida, ou a melhor que eu tenho hoje, seria essa.

E eu mesmo acho pouco. Sei lá se estou preenchendo com triathlon outras coisas que me faltam na vida.

Bom, mas evoluir em que direção quando se tem a nítida impressão de que o seu corpo e tudo mais já chegou no limite?

Por isso "fugi" do IM Brasil. Porque naquele momento eu achei que "evoluir" não seria mais possível e não queria um retorno que me decepcionasse.

Discuti com o Rodrigo e ele concordou que era o momento de fazer algo fora.

A escolha do IM do Texas foi casual. O Rodrigo queria que eu fizesse o IM da Africa do Sul, mas em uma conversa com a Cintia Tobar, ela achou que as inscrições já tinham se esgotado, pois a prova tinha se realizado a pouco.

Entrei no site e achei que estava sold out. Sai procurando um outro e o primeiro que encontrei com a mesma data foi o do Texas. E as inscrições estavam abertas.

Você é impulsivo? Eu sou,viu?

Bem, depois fui descobrir que tinha me enganado em relação ao da Africa, mas pelo jeito que que foi a prova lá esse ano, confesso que não fiquei muito triste, não...(rs)

Mas sei lá se escapei da frigideira para cair no fogo. Segundo o site RunTri "With an average finish time of 13:19, Texas ranks as one of the top 5 most difficult races on RunTri's Toughest Ironman Race Index. Notably, the swim and run times are significantly higher compared to most other races".

Do ponto de vista da minha preparação para esse Iron, esse ano foi como o primeiro de todos - sofri demais.

Mentalmente foi muito duro.

A ponto de deixar a bike no rolo a semana toda porque quando chegava a noite, montar tudo era um esforço que me fazia ficar no sofá completamente desolado. Treinar nem se fala...

A ponto de antecipar o estresse do treino de quarta-feira logo na terça-feira a tarde.

A ponto de quase vomitar na borda da piscina e sair da água sem querer falar com ninguém.

A ponto de quase mandar um email para o coach e dizer que eu estava em overtraining e precisava parar.

Mas pensava "vou fazer o treino hoje, amanhã eu escrevo".

No outro dia, a mesma coisa e assim foi indo até eu conseguir fazer tudo o que foi planejado.

O tempo também ajudou e houve apenas dois longos de rolo, aqueles de cinco horas (só que depois que vi os treinos insanos do Paulo Pitton na bike de spinning isso tá mais para um "longuinho" modesto).

Em alguns momentos, a falta de carbo e o desequilíbrio hormonal era tamanho que meu mal humor quase me fez bater em um casal que parou para dar um beijinho na porta do metrô ou pedir satisfação para um cara que esbarrou de leve na minha mala na fila do restaurante.

Eu mesmo não me agüentava.

Olha, quer saber? Nunca mais brinco com essa coisa de TPM com as mulheres!

Tô fora!

Até vontade de chorar rolou. As vezes, um pouco de auto-piedade, as vezes uma sensação inexplicável de...olha, não sei explicar.

No meu último treino no Riacho, quando fiz a última curva, vi a entrada do Clube dos Borracheiros e que percebi que tudo tinha terminado, chorei um pouco por dentro.

Mas vamos deixar esse papo emotivo, vamos? :-)

Bem, esse ano também incorporei algumas coisas para tentar evitar as lesões do ano passado, como um pouco de musculação estática e funcional nas manhãs de terças e quintas. Fiz muita prancha também.

Certamente, não foi o suficiente para ganhar performance, mas minhas dores lombares foram para o espaço.

Ir na academia também tinha um elemento mental - eu precisava de algo que fosse minimamente recreativo e me desse um pouco de sanidade (rs). Fazer algo fácil, conversar com as pessoas, fazer um pouco de cera. Coisa de gente normal, enfim....:-)

Também passei a fazer uso do Trigger Point Performance, que utilizava para fazer auto-massagem nos finais de semana. Gostei demais!

Acredito que tudo isso tenha funcionado, dado que tive cansaço, mas nenhum tipo de lesão ou qualquer dor muscular.

Na alimentação, mudei algumas coisas. Reduzi muito a quantidade de carbo, aumentei a de gordura boa (amêndoa sem sal e castanha do Pará) e mantive a quantidade de proteína (basicamente soja) e muito farelo (linhaça, aveia, quinua e amaranto) e introduzi a Chia (sensacional). Continuei com Glutamina, BCCA, AminoFor, Termoplus, Muscle Milk e passei a fazer uso de outros suplementos, como Omega 3, ZMA e Dolomita e enzima Coenzima Q10. Chá Verde (argh!) e Chá de Hibiscos.

É, moçada. É muita coisa. Eu sei - não pensem que isso passa em branco (inclusive porque dói no bolso).

O resultado foi uma mudança forte. Meu peso caiu para 79,5 kg (um quilo mais leve que o ano passado) e estou com 9,5% de gordura corporal - patamar que eu jamais pensei em atingir, já que o nível mais baixo que já atingi foi 12,5%.

Mesmo com essa queda do índice de gordura corporal, meu sistema imunológico segurou as pontas e não tive problemas na pele, resfriado ou gripe.

Obviamente, não planejei nada disso porque não tenho capacidade de estabelecer esse tipo de meta. As coisas foram, assim, acontecendo.

E agora vou pra o IM do Texas. Uma prova que não conheço, mas sobre a qual vi e li tudo que podia.

Minhas expectativas? Fisicamente estou bem, mentalmente not so much.

A queda em no Long Distance de Caiobá tirou um pouco da minha confiança e fiquei com um pouco de estresse pós-traumático. Não me sinto totalmente a vontade em cima da bike.

E também fico pensando se as coisas vão se encaixar depois de um período de treino tão duro. As vezes me vejo exposto a alguma bobagem ou acidente...

Sabe corrida de fórmula quando o cara é o poli position do primeiro ao último treino e, pumbá, bate na primeira curva e abandona?

É assim...

Só que pior, pois diferentemente da Fórmula 1, não tem outra corrida duas semanas depois...

E também estou meio perdido em questões "existenciais".

As vezes, fico em dúvida se tenho em mim algo para dizer que sempre vou fazer Iron ou mesmo se sou suficientemente forte mentalmente para prosseguir.

Suficientemente forte para dar conta das minhas próprias expectativas.

Até hoje, cada prova feita era motivo para uma outra e por todas elas passava um fio invisível que carregava uma meta, um objetivo ou um sonho...

Mas em 2011 esse ciclo se fechou.

Minha dúvida é se vou ter condições e força para abrir um outro.

Acho que a minha resposta começara ser respondida na prova que me espera no Texas.

Até lá!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O "Short" Long Distance Caiobá - 2012

Não, o título do post não está errado...

Esse Long Distance só foi "Long" meeeeeeesmo por conta das 16 horas da viagem de ida e volta entre São Paulo e Matinhos nesse último final de semana.

Depois de uma natação muito confusa, em que a bóia amarela ficava brincando de esconde-esconde atrás do sol ou se confundindo com as tocas amarelas na cabeça dos nadadores, eu tomei um capote na bike e tive que abandonar a prova.

Nada muito sério. Fui tangenciar os cones e, de repente, um olho de gato "aparece" na minha frente. Nem deu tempo de desviar e a topada estorou as cameras dos dois pneus. Não consegui me equilibrar e fui ao chão. Estava com uma velocidade mais reduzida por conta do impacto e tive apenas alguns arranhões.

Foi descuido meu.

Mas acontece com outras pessoas em todas as provas e é inevitável que um dia a gente passe por isso também.

E muito mais sério foi o acidente com a Vanusa Maciel que, acabei de saber, cancelou a participação no IM do Brasil por conta de incidente envolvendo ciclistas que estavam agrupados aproveitando o vácuo e cairam na frente dela.

Volto nisso um tantinho mais a frente...

Aproveitei e fui ver a prova para torcer pelos amigos que estavam em Caiobá. Fiquei perto do retorno, ali ao lado da transição.

Agora, engraçado é o seguinte: ao vivo e a cores eu nunca tinha assistido uma prova de triathlon na vida!

Doido isso, hein?

E a primeira coisa que se nota é que não se vê uma competição, mas várias "provas" dentro de um único percurso.

E imagino como deve ser competente uma organização para dar condições a que todos tenham como realizar esses projetos pessoais, independentemente de quão diferentes possam ser as metas de cada um.

Mas não é só a mesma infra-estrutura que deve estar disponível para a primeira e a última pessoa que vai passar pelo pórtico.

As regras devem ser igualmente compartilhadas. E elas não estão lá por capricho.

O vácuo é proibido porque coloca o risco a integridade física de TODOS que participam do evento.

Coloca em risco tanto o atleta que vai lá cumprir o enorme desafio de vencer a distância, dar um um beijo nos pais, na esposa e cruzar o pórtico com os filhos sem se preocupar com o aspecto competitivo do evento, assim como os que querem ficar entre os cinco, entre os dez, entre os quinze primeiros da sua categoria.

Mas, para esses último grupo, o vácuo tem outra implicação.

A desigualdade.

Lá de fora a percepção da desigualdade provocada pelo vácuo é outra.

A coisa é pior do que se pensa.

Os que se apóiam em grupos e andam no vácuo chegam com o rosto tranqüilo passam imediatamente para a corrida com certa descontração; já os que fazem uma prova solo parecem demorar um eternidade para chegar e, quando chegam, saem da transição para correr com uma expressão carregada, dolorida.....

Essas diferenças deixam a gente um tanto impactado, até porque o sofrimento de quem se apóia nas próprias pernas se aprofunda com o calor e o desgaste ao longo da prova.

Dá para perceber com um profundidade que não se percebe quando se está lá dentro que são duas competições.

Mas o pessoal é guerreiro demais. Volta após volta, naquele retorno da transição onde estávamos, o semblante da maioria das pessoas parece querer dizer o seguinte:

"Hei, você ai da frente - eu estou aqui e vou continuar fazendo força."

Pode parecer estranho para quem não sabe bem o que são as provas de endurance, mas foi nos momento mais dificeis para os que estavam lá dentro que estar fora da prova mais me doeu.

Vou ser sincero: não era bem prova com quatrocentas ou seiscentas pessoas que me interessava.

Tem gente que estava ali com tantos objetivos diferentes - e o que significa pra mim chegar na frente ou atrás de pessoas que não conheço e tem referências éticas e morais tão diferentes das minhas?

Eu queria estar lá correndo com aqueles caras que estavam dando duro, com os meus amigos e com quem mais é capaz de compartilhar um embate pessoal honesto para vencer aquela distância no menor tempo ou da melhor forma possível.

Você lembra quando jogava bola na rua e tinha "um contra". A gente colocava dois chinelos para marcar os gols e chamava um jogo com um combinado que morava na vizinhança.

O pessoal da minha rua queria ganhar dos caras da rua de cima.

E o jogo de futebol com criança de 10 anos é tenso! ;-)))

Hoje, "os caras da minha rua" se mudaram. Eles vivem por ai e a gente aparece para "um contra" em Santos, em Florianópolis, Penha, no Rio de Janeiro, Caiobá ou Pirassununga.

Talvez muitos deles estejam fadados a nunca conquistar um pódio dentro de uma luta que não se pode vencer.

Mas acho que eles compartilham aquele belo pensamento do Darcy Ribeiro, quando esse dizia

"Lutei muitas lutas, perdi a maioria, mas estou feliz; infeliz estaria se estivesse ao lado dos que me venceram".

segunda-feira, 26 de março de 2012

I Etapa do Estadual do Rio de Triathlon

Faz tempo, muito tempo que eu deveria ter ido ao Rio para fazer essa prova de Triathlon Olimpico.

O Rodrigo havia colocado na programação outras vezes, mas por um motivo ou por outro, até então não tinha sido possível.

Mas valeu a pena esperar, pois a verdadeira graça da coisa estava em rever o amigos, como o Rodrigo, o Artur e o Wlad e a Aline, além de conhecer pessoalmente o Peter, o Fabio Russomano e o Xampa, que já tinha vindo algumas vezes a São Paulo - só que é mais fácil ir ao encontro dele no Rio do que cruzar a cidade de Santana ao Ibirapuera de carro para a gente conversar.

E, veja, isso não é "jeito de falar" sobre o trânsito de São Paulo. O negócio é assim mesmo; quem vive aqui, sabe.

Até escrevi para o Wlad e para o Xampa que, depois do relato de ambos, eu nem tinha motivo para escrever o post nesse blog, a não ser para agradecer aos dois pelas coisas bacanas que escreveram sobre a prova, as fotos e a recepção que deram para nós lá.

Um paulista como eu, que cada vez adere mais ao "manês", diria "coisa de brou, tá ligado maluco?" :-))))

Mas resolvi escrever depois que o Wlad disse "cara, não agüento mais ver aquela foca dando risada no seu blog, pelo amor de Deus...."

Bem, minhas expectativas para a prova eram poucas em termos de resultado. Com o foco no IM do Texas não fiz nenhuma coisa especial, mas caiu bem para me dar um alento físico e mental, pois os treinos nessa fase são bem pesados pra mim.

No momento em que me encontro na preparação para o Iron, já sai da fase dos treinos de velocidade, mas não totalmente. E o volume aumentou, mas também não é apenas isso.

Agora estou nos treinos de (muita) força. E põe força nisso....

E esse lance de fazer o Iron pela quarta vez....

Vocês notam que a grande maioria das coisas escritas sobre essa prova dizem respeito a primeira participação?

É quase um consenso que o seu primeiro Iron é uma prova em que você deve ter um único e sagrado objetivo: vencer a distância, não importa o tempo.

A partir dos próximos, você começa a pensar em "melhorar".

E vai conseguir.

Pelo menos por dois motivos: terá acumulado um volume maior de treinos e seu corpo terá mudado, adaptando-se ao esforço que você encara continuamente, tornando-se, assim, mais eficiente.

O segundo motivo é que, mais experiente, vai corrigir os erros e acertar os detalhes que faltaram na primeira participação. Só isso tem um impacto importante em termos de resultado.

Mas quando você chega no terceiro, quarto...meu amiiiiiiigo.

Ai se quiser melhor o que vai definir mesmo são os treinos duros.

E esses treinos vão naquela linha de perseverança, que é o "trabalho duro que você faz depois de ter se cansado de fazer o trabalho duro que você já fez", conforme disse uma vez alguém sei lá quem.

Bem, fui para o Rio um pouco desanimado por achar que os treinos para eu conseguir fazer um Iron melhor (não necessáriamente mais rápido) que o do ano passado estavam além da minha capacidade.

Vou citar apenas um exemplo para não ser muito chato.

Na quarta-feria faço um treino de corrida na esteira. São 20 minutos de aquecimento.

Feito isso, acerto uma velocidade constante - e quem determina essa velocidade sou eu, já que o método de treinamento respeita a minha percepção de esforço.

Com essa velocidade constante, a brincadeira é a seguinte:

3 minutos a 6% de elevação
5 minutos plano
2 minutos a 8% de elevação
5 minutos plano
1 minuto a 10% de elevação
5 minutos plano.

Isso três vezes e sem intervalo.

Experimenta colocar 12 km/hora.

Foi o que eu fiz. E não consegui.

Na terceira parte, depois de 3 minutos a 6% e mais 5 no plano, quebrei feio.

Não era a alimentação, desidratação, cansaço, stress, tênis, esteira desregulada ou os cámbau .

Não consegui. Sem desculpas.

E quando eu "quebro" o lado mental está sofre mais que o físico.

É como se a minha mente me bloqueasse.

Eu poderia teimar e ir além? Não sei. O custo daquilo poderia ser alto. Pensei que eu tinha outro treino muito difícil na quinta-feira e a prova no domingo, um pouco naquela persepctiva do Max quando ele diz "treine como se existisse o amanhã", um texto que foi lembrado pelo Alexandre no Facebook e com a qual não há como discordar.
Fiquei a academia um pouco mais até a adrenalina baixar, obviamente transtornado.

As vezes a gente faz 90% do treino, mas o que fica mesmo na nossa cabeça são os 10% do objetivo que não se atingiu.

A sensação é: putz, não fiz nada!!!!

Parece que a gente nem foi no treino.

Tô mentindo?

Pois é...

Problema de quebrar assim, eu sei, não é apenas o efeito imediato, mas o que vem depois - tem gente que fica incorformada, põe a faca nos dentes e tenta novamente em outras ocasião; mas há aquelas em que bate o desânimo e o medo de sofrer novamente nos treinos que virão pela frente.

Eu vezes pendo para um lado, vezes para o outro.

Por isso no outro dia retomei logo pela manhã um sessão de funcional relativamente leve, conversei um pouco com amigos que chegam cedo na academia para descontrair e a noite me preparei para 2:30 no rolo fazendo muita força.

E consegui encaixar bem esse treino, que é outro exercício complicado.

No outro dia as coisas estavam todas no seu devido lugar novamente.

Ufá!!!!!

Bem, obviamente notamos todos aqui que da prova que é bom mesmo não tem quase nada até agora nesse post...

Eu sou mais ou menos aquele tipo que você encontra na rua e pergunta "Fala manú, tudo bem?"

Ai o sujeito acha que a pergunta é para ser respondida de verdade e começa a contar todos os problemas da vida dele...:-)))))

Indo mais direto ao assunto então (juro que vou tentar).

A prova lá do Rio é uma coisa simples, nada muito diferente da provas americanas pelo que vi em Miami.

A diferença é o Estadual é mais "caseiro", no sentido que atrasos são tolerados para a entrada na transição, não há pintura de número, a demarcação da largada da natação é meio que "no grito" ( tem um cara fica gritando "pessooooaaaallll, a largada é aquiiiiiiii"), não tem hidratação no percurso do pedal e chip apenas na corrida.

Isso é um problema? Olha, se você encara o evento a partir de um ponto de vista hiper-super-ultra competitivo e se atém aos detalhes, provavelmente vai ver uma série de problemas que eu não vi.

Só que se a sua perspectiva é nadarpedalarcorrer em um dos lugares mais lindos do mundo, com pessoas simpáticas e amigas, além de triatletas com um ótimo nível...bem, então você vai gostar demais da prova, como eu gostei

Na verdade, o Estadual do Rio está no meio do caminho entre simples, baratas e charmosas "provas comunitárias" que se encontra muito na Europa, sobretudo na Inglaterra, e um evento como o Troféu Brasil, nos moldes em que ele é realizado hoje.

E me parece que funciona. Só que, atenção: ano passado foram 100 inscritos da primeira etapa, contra 400 em 2012.

O aumento do número de inscrições no futuro pode trazer estrangulamentos, fazendo-a pagar o preço pelo seu próprio sucesso. Ai o formato vai ter que mudar um pouco...

E como foi a prova mesmo?

Ah, sim...:-))))

A minha natação continua teimosamente estacionada e não acompanha e evolução na bike na corrida. Sai forte, perto da água e desta vez não me confundi em relação as bóias.

Tomei apenas uma bolacha no rosto, na segunda perna das duas voltas, quando o pessoal já está mais disperso. Na hora fiquei bravo, mas o camarada pediu desculpas e, olha, quer saber? Nem doeu tanto...:-))))

Depois do último número da Revista do MundoTri, sobretudo os textos da Ana Lidia e do Allun, vi que preciso reconsiderar minha técnica de natação. Tenho um ótimo deslize, com braçadas longas e otimizadas; muito bom para nadar em piscinas, mas ineficientes para no mar.

Vou começar a rever isso imediatamente.

O pedal são duas voltas, sendo a maior parte dele feito na Perimetral. O pessoal falou tanto dosespaçadores na pista e nos "buracos" que até fiquei preocupado. Só que para quem está acostumado com as condições do pedal no TB, principalmente ali perto do Porto, realmente o problema para um cara de fora é beeeeemmmmm menor que os meus amigos do Rio estão achando.

Ah, sim. Prova pequena que vai crescendo chama algumas pragas, tais como os pelotões. Poucos, mas havia. Como disse o Rodrigo indignado "Se o cara quer fazer uso do vácuo, porque não faz a inscrição no sprint do estadual, em que é permitido andar na roda?"

A fiscalização atua, mas não sei se houve punições ou se elas são suficientes. Como diz o Marlus, talvez fosse o caso de eliminar o sujeito das provas e não permitir a inscrição nas outras. Não sei se é possível (acho que não há meios legais para isso), mas eu concordo com ele.

Pedalei o tempo todo muito pesado e dei uma "quebrada" no último terço da prova. Sem dúvida aquilo já era o sinal dos treinos pesados da semana, embora quando voltei para o aterro minha pernas já estavam ok.

Fiz uma transição rápida e sai para correr com uma desenvoltura que me surpreendeu - eu praticamente "sprintei" no ínicio.

Mas recuei.

Sei lá, acho medo. Medo de sofrer muito na corrida e quebrar.

Essa semana li um artigo an Inside Triathlon sobre o David Scot. E lá pelas tantas o texto tem uma hipótese bem interessante sobre isso. Em uma época em que não tinha túnel de vento e não tinha "método de treinamento" entre tantas outras coisas, como esse cara fez marcas incríveis?

Segundo do Matt Fitzgerald, autor do texto, o grande diferencial, "que não poderia ser roubado" do David Scott é que ele topava com o sofrimento de frente sem arregar. E se esse domínio da dor pode ter aspectos genéticos ou fisiológicos, ele recusa a hipótese de que se trata apenas de uma capacidade inata ao indivíduo. Ela pode ser desenvolvida com a persistência.

E existem algumas "manobras mentais" que ele descreve para isso. Lembro também que o Torbjorn Sindbale sempre ressalta a importância de fazer duros treinos de Time Trial curtos, mas intensos, para se aprender a domar o sofrimento.


Outra coisa é que tenho que perder o medo de me arriscar. Uma coisa que se discute muito no Ironguides é que tem uma hora que você tem que sair da sua zona de conforto e tentar i rum pouco mais além - mesmo que isso tenha um custo.

Pois se não der certo, isso faz parte do jogo. Só que o medo do "fracasso" nos impede de ver isso, não é? Nós, amadores, temos uma cultura do "desistir jamais" que os caras da elite, não tem.

E engraçado é que eles vivem disso.

Já nós, do age group, somos capazes das maiores insanidades para cruzar uma linha de chegada.

Veja, não estou vendendo a idéia de que as pessoas, frente a qualquer dificuldade, devem desistir. Não é isso...

Mas, vem cá: não é mais madura uma pessoa que admite que hoje "não deu" depois de ter se esforçado ao máximo do que outra que corta na própria carne, talvez com medo de decepcionar a si mesma ou aos outros?

É corajoso um atleta que tem medo de não se perdoar?

Bom, voltando....(acho que pela terceira, quarta ou quinta vez que tento voltar para o assunto mais importante aqui, que é a prova!)

Aproveitei também p
ara correr com o MV2 da Newton, o tênis "minimalista" da marca. Venho treinando com ele algumas vezes e até um longão fiz com esse modelo.

Embora a grande maioria das pessoas ache que o Newton é um tênis cujo diferencial é favorecer o pouso do pé de forma chapada, na verdade ele não se diferencia das outros marcas por esse motivo.

Mas não vou falar sobre o Newton, não. Vamos aproveitar aqui para esclarer algumas coisas.

Primeiro, assim: "tênis minimalista" é um nome que tem sido usado para calçados de corrida que são muito diferentes.

Segundo: nem todos os tênis que favorecem a pisada chapada são minimalistas strictu senso.

O Newton Race ou Trainer, por exemplo, são tênis que favorecem a pisada do pé no estilo "barefoot", mas são lighweights e, importante, tem amortecimento.

Mas, claro, não é o mesmo amortecimento que esses "tijolos" de seiscentas pilas que são empurrados para você por vendedores treinados pelas próprias marcas nas lojas de triathlon ou nessas "lojas conceito" com decoração clean, em que o tênis tem status de celebridade e o atleta é um adorno, digamos, opcional.

A única coisa em comum em relação a esses todos esses tênis é que não há um desnível grande no solado com um calcanhar mais alto.

O MV2 da Newton está muito mais para um tênis "flat" do que para um minimalista - na minha opinião, a gente abusa do termo e pode achar que está usando um calçado "minimalista" quando não está.

Quem quiser ter uma bom apanhado dessa discussão, recomendo o sitio da Slowtwitch.

Mas antes de discutir tênis eu pensaria em antes definir o jeito que se corre. Depois vem o tênis.

Ou, como bem definiu o Fernando Quirino no Ironbrothers, primeiro vem o "método", depois segue o pacote.

Para quem tem a pisada chapada (ou quer ter), segue métodos especificos de corrida, como o Pose, Natural Running, Chi Running ou segue a cartilha das passadas curtas defendida por assessorias com o Ironguides, esses tênis realmente ajudam.

E ai, depois de definido isso, pode-se escolher o tênis da sua preferência: Newton, Minimus, Hattori....

Agooooorááááá...onde a gente estava mesmo???? ;-))))

Ahhh, a corrida!

Entrei na corrida mas logo vi que não havia sinalização de quilometragem. Como não sou usuário de GPS, meu ponto de referência era o Rodrigo, que estava fazendo a prova.

Como ele estava na minha frente, se ele descia, eu tinha que descer. Se ele descia, mas depois subia, então eu tinha que descer, mas depois subir novamente.

Outro ficaria estressado, né? Mas eu estava lá curtindo e aproveitei para correr com um grupo de corredores puxado pelo Alexandre Vasconcelos.

Ele me passou, imprimiu uma ótima passada e fomos atrás, as vezes revezando um pouco quem ia a frente.

Ai, talvez no últimos 800 metros, perguntei a ele se estávamos a frente do último retorno e depois era a chegada. Ele disse que sim.

Nesse instante achei que aquele final estava "molezinha" e o tempo tinha passado mais rápido do que tinha pensando.

Acelerei o ritmo deixando o Alexandre um pouco atrás (ou, o que é bem mais provável, ele tenha escolhido ficar um pouco distante) e, como estava com gás, mirei em alguém na frente e fui. Nem pensei mais no meu companheiro de prova.

Mas faltando dez metros só ouvi as passadas de alguém acelerando...

Advinha....

Estiquei a passada, acelerei, bufei, cuspi, gritei....bom, dá para imaginar o Pateta com aquelas pernonas dando um sprint com bermuda de triathlon?

Era eu...

E ele me deu na cabeça com a maior categoria.

Obviamente, mais uma coisa que eu tenho que aprender é saber disputar com quem é melhor do que eu; pelo menos tentar explorar meus pontos mais fortes antes de chegar nesse limite. Se ele fosse da minha categoria, eu teria perdido uma posição importante.

Portanto, para as próximas aprendi que para um cara sem velocidade de sprint, o melhor é caprichar na velocidade média e desgastar o outro na perseguição.

Agora, se o cara for bom tanto em uma coisa, como em outra...

Ai não tem Cristo que ajude mesmo.

Em resumo...bom, espera - esse texto fala de tanta coisa que eu já perdi a noção do que é tenho que resumir.

Bom, a prova foi legal. Deu 1:21 e um pódio com o quinto-lugar na categoria, assim como deu uma baita vontade de voltar lá de novo.

E eu vou....

sexta-feira, 2 de março de 2012

O Foco e da Dona Foca...

Numa determinada aula de natação para uma criança muito destraida de 4 anos a avó abre a porta da piscina e grita histérica "Tenha foco Lorena.

FOCO!"

Passado o momento de histeria e loucura pergunto

"Você tem foco Lorena?"

"Eu não!!!!"

"Mas o que é foco?"

"É o namorado da foca, ué!!!!"

História real contada no facebook pelo professor de natação e amigo Fernando Resende, seguida de um oportuno comentário ˜Percebeu a eficiência da Bronca"????? ;-))))))

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A sabedoria do "Meio Termo"

Essa semana comprei algumas revistas para ler no Carnaval. Pra quê?

Me deu nos nervos.

Sempre que aparece um tema polêmico, complexo ou de difícil resposta nas nossas discussões mundo afora, sacamos do colete respostas prontas que sempre soam como a solução ideal para qualquer discussão, não importa qual.

"Você precisa ouvir o seu corpo".

"Descanso também é treino".

"Cada um é um..."(sic!)

"O corpo manda sinais"

Esse conjunto de apetrechos de retórica pronta é de grande utilidade e anda muito em voga em colunas de "experts" que mandam brasa em revistas especializadas.

Aliás, abre parênteses:

Por quê essa Revistas não mandam para o espaço esses figurões, donos de assessorias de boutique, que já prestaram serviços a nação, mas abdicaram de pensar e agora vivem de falar obviedades para entupir o bolso de dinheiro?

Por quê não colocam pra escrever esses meninos que saem da faculdade, estudam e fazem pesquisa para arejar um pouco as idéias ou dão uma chance para esses caras de assessorias menores, que tem experiência e estão mostrando serviço já faz tempo?

"Pesquisa" em Revista assim, tirando as exceções de sempre, aparece em box apenas quando, mesmo sendo inútil, desperta alguma curiosidade, tal como "Estudo realizado na Universidade X aponta que os indivíduos que dão dez cambalhotas e roem as unhas do dedão do pé antes de correr apresentam 78,6% mais probabilidade de se lesionarem do que aqueles que não dão cambalhotas e costumar freqüentar uma pedicure regularmente."

Agora, fecha parênteses.

Essa profusão respostas prontas nos desobriga de pensar e nos dá a (falsa) sensação de segurança.

Porque quando são utilizadas em debates de idéias, parecem tão consensuais que são capazes de resolver conflitos, já que são verdades aparentemente tão acachapantes que ninguém precisa discutir o assunto.

Vai discutir com alguém que "você tem que ouvir o seu corpo"? Vão te chamar de doido.

Ultimamente, sei lá porque, ando de implicação com outra idéia que me atormenta até em sonho: "Equilíbrio".

"Equilibrio" é o mantra da "sabedoria do meio termo" e que virou recurso muito comum por técnicos de assessorias que usam e abusam do senso comum para dizerem o que a minha mãe, a mãe da minha mãe e a avó da mãe da minha mãe já diziam sem ter faculdade, isto é, "Nem tanto ao céu, nem tanto a terra".

Tudo bem que basta você por o pé na rua e adentrar a uma sociedade completamente neurótica, histérica, compulsiva, predatória e tão consumista em que até o "bem-estar" virou mercadoria de prateleira para notar que não resolve muito ser "equilibrado" se o resto do mundo não é.

Essa coisa de "Equilíbrio" é bonita nos livros de auto-ajuda de quinta categoria do Paulo Coelho.

Porque ler Paulo Coelho é bico! Difícil é ler literatura portuguesa (ou inglesa, francesa...) de qualidade.

Conseqüência disso é como pipocam "pensamentos" nas chamadas redes sociais. Na grande maioria dos casos, são atribuídos a autores que nunca escreveram necas daquilo.

É punk a gente ver frase de um anônimo-mané-qualquer atribuída ao Mario Quintana no facebook.

Pô gente, nós encaramos ironman, maratonas, ultramaratonas que são das coisas mais difíceis nesse planeta, mas alimentamos nossa massa cinzenta com literatura de, digamos, "qualidade discutível"?

Tudo bem, não precisa ler "O Guarani" do José do Alencar.

Mas sua bike vale 20 paus e você não pegou na mão sequer uma Antologia Poética do Carlos Drummond de Andrade?

Só conhece "E agora José" porque viu o Cid Moreira declamar o poema no Fantástico? :-((((

Cacilds!!!!!

Mas, espera....

Tô com a sensação que queimei meu filme....

E não fui muito justo porque generalizei, né?

Verdade.

Aliás, nem sei porque desembestei a falar sobre esse assunto...

Voltando ao assunto "equilíbrio".

Como esse blog é de triathlon, vou me arriscar a dizer o seguinte: se você escolheu fazer esse esporte e se dedicar a ele...bom, então "equilíbrio" é tudo que você não vai achar aqui.

Do ponto de vista do nosso "estilo de vida", é fácil ver que nossa relação com os compromissos familiares e profissionais ficam totalmente embaralhada.

Não "embaralhada" no sentido de que não há uma ordem

Ordem há.

O problema é que essa ordem distoa de 99,9% dos humanos que levam suas vidas de forma rotineira e socialmente aceitável - e entre esses está a sua família, seus amigos e o povo que trabalha contigo.

E tentar ajustar todas as engrenagens é coisa de louco.

Mas sempre surge alguém com aquela sabedoria de botequim e lhe diz "você precisa encontrar um "equilíbrio".

Naturalmente, isso me estressa mais ainda e o "alguém", logo percebendo que vou chutar o balde (e algo mais), arremata:

"Tá vendo como tô com a razão?? A gente quer ajudar e você fica todo descompensado!"

HÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ.... ;-)))))

Bom, a forma como eu encaro o assunto é o seguinte: ao invés de ficar pensando em correr de um lado para outro como se fosse aquele malabarista chinês que equilibra pratos em espeto de bambú, já sou tão pragmático que admito que alguns pratos vão pro chão.

As vezes (não todo dia, não toda hora) eu simplesmente me pergunto da forma mais realista possível "onde é que vou perder menos?"

Por isso que esse esporte serve para nos amadurecer. Porque se faz escolhas e se lida com elas.

Sim, porque ao escolher algo, outras coisas deixam de ter prioridade. E apenas meninos mimados acham que podem ter tudo e tudo ao mesmo tempo.

Como dizia Pete Tosh "Everybody wants to go to heaven, but nobody wants to die".

(Se é que essa frase é dele...;-)))))

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Texto em linha reta....

Quando ocorre uma acidente com um ciclista ou triatleta provocado por motoristas, os nervos ficam a flor da pele.

Se esses acidentes se repetem no espaço de poucas semanas, a situação parece insustentável.

Não vou fazer uma discussão sobre a relação predatória entre que motoristas e ciclistas. Os posts nos Blogs do Ciro e do Max e a excelente discussão que segue no espaço dos leitores realmente resumem tudo o que se pode dizer sobre o assunto.

Ou melhor: quase tudo.

Uma coisa que me incomoda nessa discussão é que a "ficha cai" apenas quando há a morte de uma triatleta ou um ciclista.

Entretanto, indo direto ao ponto: por quê não ficamos igualmente chocados quando esse tipo de barbárie atinge os ciclistas mais pobres que não são atletas?

Bem, as últimas estatísticas dizem o seguinte: em 2001, os acidentes de trânsito com ciclistas vitimaram 1.000 pessoas. Em 2009, foram 1.600 mortes.

Cadê a indignação com essas estatísticas estarrecedoras?

Ahhh, sei...não são triatletas, é isso?

Nós repetimos o problema da classe média mais elitizada nesse pais: as questões só se tornam visíveis pra nós quando batem a nossa porta ou a do nosso vizinho.

Grande parte das mortes não são de pessoas com o perfil sócio-econômico como o nosso ou dos camaradas que brigam por mais ciclovias em Moema.

Esses são educados, tem recursos e são formadores de opinião capazes de brigar por seus projetos no gabinete do Prefeito ou do secretario de transportes.

Já a grande maioria dos ciclistas que "estão por ai" são pessoas totalmente expostas e desprotegidas que, não tendo renda para se deslocarem entre a casa e o trabalho com algum tipo de automóvel ou pelo sistema público de transporte, utilizam a bicicleta como veículo.

O nível de vulnerabilidade dessa população no trânsito é assustador.

Uma pesquisa feita em Pelotas, no Rio Grande do Sul, nos diz o seguinte: 2/3 das pessoas que utilizavam bicicleta (cerca de 18 mil pessoas) o faziam para ir ao trabalho, sendo que 80% delas a usavam a noite e 70,0% em dias de chuva - o que reforça a probabilidade de acidentes, pois em relação aos equipamentos de segurança exigidos pelo Código de Trânsito Brasileiro, somente 0,3 das bikes tinham todos os equipamentos e 55% tinham apenas um equipamento. Em 90% dessas bicicletas não havia espelho retrovisor.

E freios? 15% circulavam sem nenhum.

Bem, e estamos falando de Pelotas, que não é uma cidade mal situada no ranking das cidades com melhor Índice de Desenvolvimento Humano. É possível imaginar a situação nas grandes áreas metropolitanas e nos chamados "municípios dormitórios".

Hoje no Ironbrothers nosso amigo Curado estava preocupado com o número de ciclistas que utilizam suas bicicletas alcoolizados. Ele propõe um campanha que tenha uma visão global do problema, pois retirar os abomináveis motoristas bêbados do trânsito é parte do solução - parte fundamental, mas apenas parte.

Com esse texto, não estou querendo aqui dizer que a morte de um ciclista ou triatleta não é chocante e muito menos que não devemos protestar até perder a voz cada vez que uma vida humana se perde.

A morte de qualquer um ou de mil é uma perda inestimável. Não se trata de números, que fique bem claro.

O que estou querendo chamar a atenção é que essa coisa intolerável acontece todo dia!!!!

TODO DIA!!!!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Internacional de Santos 2012


Ano passado, mais precisamente no dia 20 de fevereiro, eu anotava aqui no Blog depois de ter alcançado um PB no Internacional de Santos.

"(Fiz ) a prova para 2:27:53, cerca de quatro minutos abaixo do meu melhor tempo em triathlons Olímpicos até o momento. PB. (...) Mas esse meu lado mais crítico diz assim: alguns minutos não indicam que você mudou de patamar. Para isso, o ideal teria sido na casa dos 2:20. ;-)))"

"Mudar de patamar" no contexto que escrevi era uma forma de registrar que melhorar alguns minutos é inegavelmente bom, mas pode resultar de questões circunstanciais: um dia sem correnteza no mar, pouco vento ou uma manhã sem sol podem nos fazer alcançar nossos "PBs", digo, nossos recordes pessoais.

Exemplo.

Em 2009, minha natação no Iron foi para 1:26. Em 2010, caiu para 1:05.

Nunca nadei tanto em tão pouco tempo.

Virei uma baita nadador? Nada disso. Em 2009 deu tudo errado e, no ano seguinte, a correnteza Floripa nos empurrou para a praia.

Só em 2011 eu realmente alcancei um tempo compatível com a minha real capacidade de nadar.

Mas é o meu tempo de 2009 que está registrado na minha história pessoal.

E não significa nada.

Em outros momentos, sinto que realmente eu consegui alcançar "algo".

Esse "algo" é muito subjetivo. Nem vou tentar explicar, pois se eu já me enrolo para explicar as coisas mais triviais, imagina como iria trupicar nas pernas para falar sobre uma coisa metafísica tal como "algo".

Porque os que podem e tem condições de disputar um pódium, uma vaga para Kona ou Los Angeles, bem, esses tem uma medida muito objetiva do que é o desempenho.

Mas a grande maioria de nós temos apenas objetivos pessoais e alguma esperança - conquistar a distância de um Iron, fazer um sprint abaixo de 1:10 ou ganhar uma vaga para o mundial na rolagem das vagas.

"Algo" pra mim é assim: eu pego o ranking de uma prova com a distância de um triathlon olimpico e vejo que fiquei em 20, por exemplo.

A diferença entre o 20 e o 15 é de apenas um minuto, que julgo muito pouco: cinco posições pra baixo, cinco para cima pode ser apenas o resultado de uma questão de momento, de alguns detalhes, enfim....

Nesse quadro, tem ano que eu fico um pouco na frente, tem ano que fico um pouco atrás.

As vezes parece que estou regredindo. As vezes parece que estou avançando.

Mas no fundo, no fundo estou no mesmo lugar.

Assim entendo "mudar de patamar" como uma coisa mais consistente, em que eu pulo de uma faixa pra outra. Pode ser sua faixa de tempo, colocação ou mesmo nadar, pedalar ou correr como aqueles amigos que fazem coisas que eu invejo.

Simples e muito intuitivo, sabe?

Era assim que eu pensava ano passado. Melhorar, mesmo, seria alcançar no Internacional de Santos 2:20. Chegar junto com "os caras" que ficam no bloco intermediário entre os que ganham e os que ficam um pouco atrás.

Mal falando, não é a "elite"; é uma "classe média alta". (rs)

Para fazer valer a pena o Internacional de 2012, eu teria que subir um degrau na escada.

Mas seria difícil.

Como estamos no começo do ano, os resultados dos treinos de cada dia foram sofríveis, em que pese ir melhorando aos poucos...

Quando eu olhava o que acontecia no dia a dia, não projetava nada em termos de desempenho. Nas duas primeiras semanas tive dores musculares e alguns dias fiquei sem poder treinar por conta disso. Fora que me sentia com 120 quilos....

Só que o resultado da prova foi diferente.

A sensação foi que "o todo" (a prova) não foi igual a soma das partes (cada dia de treino).

Acho que nesses momentos mais complicados, não conseguimos ter uma perspectiva do nosso estágio de preparação: como vou fazer o melhor em um prova disputada, difícil, se não consigo ao menos dar conta das pequenas batalhas na rotina dos treinos do dia a dia?

Eu vou lá fazer o quê?

Ai entra o coach...

Mas vamos aos poucos...

Treinos

Esse ano o Internacional foi mais cedo que o ano passado. Quando o Rodrigo Tosta me enviou a planilha, pediu para dar uma segurada na intensidade nas duas primeiras semanas de janeiro. Além disso, seria um período de retomada e, portando, de treinos curtos que mal extrapolavam uma hora.

Mas não "treinei menos". Treinei mais...

Como acordar cedo tornou-se um hábito, incorporei às manhãs de terças e quintas um pouco de musculação, alongamento e um pouco funcional na academia.

Não fiz isso pensando em performance. Foram basicamente por dois motivos: primeiro, porque gostaria de não me machucar tanto como aconteceu no segundo semestre do ano passado. Pode dar certo, pode não dar. Mas eu estou me esforçando....

O segundo motivo é que os treinos são curtos, como disse - só que alguns deles são intensos. E intensidade é algo me que dói mais mental do que fisicamente.

Ir na academia pela manhã sabendo que não estou lá para sofrer me ajuda a suportar esse período. Não que seja "facinho" - são exercícios com esforço moderado, sendo que alguns bastante desafiantes.

Com isso, passei a treinar todos os dias em dois períodos.

As segundas-feiras, eu fazia nadava pela manhã. Basicamente volume com esforço progressivo. A noite, fazia alongamento em casa.

Na terça-feira, uma hora de academia pela manhã mirando as pernas e, a noite, um treino no rolo - aquecimento, depois 5 x 1 minuto forte a 90 rpms e mais 10 forte com 70 rpms. Duas vezes. Treino curto, mas tinha que ser forte!

Na quarta-feira pela manhã natação, cuja parte principal era um TT de 1k ou 20 chegadas. Ao final, saia da água imprestável, mas a noite eu corria 40 minutos aqui perto de casa e fazia mais alongamento para descontrair.

Quinta-feira, mais musculação pela manhã, mas com foco no tronco. A noite, mais rolo: treino muuuuito pesado: 5, 10 e 15 minutos no Big Gear - coisa de 45 rpms FORTE.

Mas esse eu até gostava, viu? Saia ensopado, mas sem aquela sensação de "afogamento".

Sexta-feira pela manhã outra vez na piscina. Coisa de 45 minutos. A noite, corrida puxada na esteira - 20 de aquecimento, 3 x 1 minuto no talo e 1 médio para não deixar a frequência cair muito e, em seguida, 10 minutos moderado/forte. Isso três vezes.

Treino difícil. Quando na planilha está escrito "moderado", eu por hábito sempre faço "moderado/forte" porque não gosto de sair de um exercício com a sensação de que o treino foi "tranquilo" - a exceção de quando está explicitamente colocado que deve ser "fácil".

Nem dava tempo de descansar e no outro dia lá estava eu no Campo de Marte para fazer 800 forte e 200 relax, 800 forte e 200 relax...até alcançar 1ok.

Mesmo com as pernas travadas e me sentindo pesado, fui melhorando semana a semana.

E, finalmente, um pedal Time Trial de 40 Km no Riacho Grande - que eu só fiz uma vez lá, pois choveu muito em janeiro. Substitui pelo rolo, fazendo a mesma distância aqui na sala de casa....

Resultado? Excelente!!!!!

Quebrei no primeiro domingo. Quebrei no segundo. Quebrei no terceiro. ;-))))

Eu errava a intensidade todas as vezes e nem dava 20k, mas empurrava o pedal até o final por pura teimosia.

Eu tinha que me testar antes do Internacional, pois tinha feito o Bike Fit com o Pipo em dezembro e não tinha pedalado uma vez sequer na rua depois do 70.3 de Miami.

Fui para o Riacho uma semana antes da prova. Fiz os 40k lá com média de 36.5 km/hora, gemendo como um burro velho naquelas subidas da p%$%#%...

Mas sabe quando você está tanto tempo sem fazer um treino que chega a perder a noção se está bom ou tá ruim?

Ainda lá perguntei para o Clodoaldo Oliveira o que ele achava, se era razoável e ele respondeu "Ôôôôôô...". :-)))))

Mas escrevi para o Rodrigo que a prova era cedo demais e que não tinha dado tempo de me preparar como eu queria. Tinho feito apenas um treino de transição...

Ai ele me tranquilizou (como sempre) e a gente combinou que, bem, o que importava era fazer o melhor.

Pensar apenas nisso.

Não teve polimento, apenas um dia de descanso no sábado.

A Prova

Esse ano cheguei em cima da hora e fui logo arrumando as coisas. Como estava tenso, também fiquei mais focado e fui logo para a praia. Mas só consegui molhar o corpo.

E começar sem aquecer não é bonito....

Antes da largada, parei ali na areia e olhei as bóias. Pensei "a bóia que eles colocam para a elite está ali no meio. Portanto, tenho que ignorar essa que está mais perto e mirar aquela lááááá atrás".

Beleza!

O mar estava uma piscina, mas a gente tinha que andar muito dentro da água antes de começar a nadar.

Tudo bem...

Comecei a nadar, nadar, nadar...e rapidamente notei que a primeira bóia estava pertinho.

Pensei "Nossa, tô bem...."

Beleza (2)

Mas....

"Espera! Mas está pertinho demais essa bóai, hein?"

Ganha um doce quem conseguir advinhar para qual bóia o esperto aqui nadou...

Bidú. :-((((((

Virei o corpo para a direita e vi a bóia correta no fundo do mar....

E vou eu lá atrás dela.

Só que não estava me sentindo muito bem. Meus braços doiam. Nadei como deu, mas sentia que vinha um povo atrás e que eu estava entre os últimos.

O resultado foi longe do esperado: 00:28:21, sendo o 32º colocado na categoria.

Sai da água e fiz uma transição até decente, pois nadei com um speedsuit e tirei rápido.

O começo do pedal em Santos é complicado, porque as condições do asfalto são muito irregulares.

Tem trecho bom, tem trecho que arranca dentadura.

Como tenho um DNF em razão de um tombo por aquelas bandas minha estratégia era conservadora até a Anchieta.

Quando saimos do trecho urbano, abri uma boa distância de quem estava pedalando comigo naquele inicio.

De uns tempos para prá, meu pedal em provas de triathlon é Time Trial. Eu simplesmente pedalo como se não fosse correr depois.

Porque eu sei que dá. Não consigo explicar se é acumulo de tempo no triathlon (embora esse seja bem curto) ou o fato de pedalar "travado" e com passadas curtas depois.

Sei apenas o seguinte: quando sair para correr as pernas vão estar "soltas".

E, tem outra coisa - tenho uma coisa com a minha bike que vou te contar!!!!

Olha, minha Fuji Aloha 1.0 é de alumínio e baratinha, baratinha. Só que, não sei explicar, comigo ela simplesmente funciona!

Como ela, gosto de ver minha sombra projetada no asfalto e gosto mais ainda do ouvir aquele som da roda girando quando despejo potência no pedal.

Bem, pedalei contra o vendo na ida e fiz a primeira parte com média de 37 km/hora. Entretanto, no retorno, vinha um pelotão gigante.

Gi-GAN-TE.....

Lembrei de um toque do Kleber Correa - encosta no muro da Anchieta e pedala forte.

Foi o que fiz. Fui ultrapassando fácil, mesmo sentindo que as vezes estava um pouco afogado e com as pernas ardendo nos momentos em que eu tinha que ultrapassar os caras mais fortes.

Só que depois mue fôlego voltava ao ritmo normal e minhas pernas paravam de arder.

Estava indo para 38,5 km/hora e subindo, subindo, subindo....

Só que perto da área mais urbanizada o pelotão, que ficou menor, me alcançou. Parece uma chuva de meteoros...um, dois, três, quatro, cinco...oito...dez...vão te ultrapassando.

Tirei o pé para deixar os caras passarem.

Entretanto, pelotão de triatleta em que o vácuo é proibido é coisa de gente fraca (e covarde) que precisa dos outros para fazer algo que deveria fazer por sua própria conta.

São ciclistas fracos porque juntos eles te alcançam, mas não tem força para ir embora!!!!!

No Riacho Grande os pelotões dos ciclistas não te dão chance.

Mas lá me Santos, não. Eu rapidamente chegava nos caras novamente, ia para a esquerda e pedia passagem.

Ia para frente.

Só que o rapaz que puxava os caras (ele sim, muito bom) me seguia e trazia novamente um, dois, três, quatro, cinco...dez caras me ultrapassavam em sequência!!!

Eu pedia ao fiscal que acompanhava o pelotão (sim, ele "acompanhava") que acabasse com aquilo.

Eu estava querendo ir embora e ao mesmo tempo morria de medo de ser fotografado naquela situação.

Só que o fiscais (aliás, Moto 11) apenas pediam para o pessoal ir para a direita para dar passagem!

Apenas isso!

E ninguém atendia o fiscal. O cara da minha frente, para quem eu gritava "esquerda, esquerda..." virou pra mim e disse " não, dá! A gente não pode perder o lider".

Juro por Deus! :-((((((

Virei para o fiscal e gritava com ele que aquilo era um absurdo! Ai o sujeito me disse "vácuo era proibido apenas para a elite".

Eu tive vontade descer da bike para tirar o capacete e jogar naquela moto!!!!

Quando chegamos na cidade já não era possível fazer mais nada, pois se pedalava entre os cones onde apenas duas bikes podiam passar.

Tirei o pé para aquele povo ir embora e quando olhei a média tinha despencado.

Acho que sou o único otário capaz de utilizar um pelotão para prejudicar a sí mesmo.

Só que prefiro que seja assim do que ficar no meio de um agrupamento e depois dizer "Eu não queria, mas não teve jeito, né? Fazer o quê..."

Sei....

Tentei retomar naquele retão antes da transição. Pedalei forte, mas sempre pedindo para ultrapassar os que estavam na frente e pedalando em grupo.

O resultado não foi ruim e consegui 1:04:39 (contra 1:11 de 2011). Considerando que na bike se conta as duas transições, só o pedal mesmo deu pouco menos de 60 minutos.

No contexto da prova, a coisa já tinha melhorado bastante, pois fui o 8º da categoria com esse pedal.

Bom, costumo ser "folgado" nas transições, mas fiz uma T2 relativamente rápida e fui embora.

Minhas pernas estavam bem e não senti o esforço da bike. Como tinha feitos de 10k com com "tiros" de 800 metros, estava bastante confiante que não iria quebrar.

E, pôxa, para quem fez só prova de 70.3, correr 10k não seria aquele drama.

Só que não importa, sempre é um drama!

Porque quando você está buscando "algo" (lembram do "algo"?) nunca para de fazer força. Se diminui a distância, você faz mais força ainda.

E como fiz força!!!!

Como vinham uns cara bons no meu encalço, como o Luis Tinello, pensava que deveria em acelerar em algum momento.

"Vou acelerar nos últimos 5k."

"Não, não...vou acelerar nos últimos 4k."

"Espera... deixa para quando faltarem 3k."

"Pôxa, vou esperar mais e ir com tudo nos últimos 2k."

"Huuuummm...acho que vou deixar para o último quilômetro...."

"Caramba, um um quilômetro é muita coisa! Deixa chegar nos 500 metros finais..."

Na real mesmo, só quando entrei na areia dei aceleradinha....:-))))))

Fiz a corrida para 0:45:28 contra 0:49 no Internacional do ano passado.

Considerando minha faixa etária, foi a 10º melhor corrida.

Resumo: não fosse a natação horrível, daria para ter ficado entre os dez.

O resultado global de 2:18:20 - 15 na faixa e 219 no geral.

Feliz? Bom, o Vagner do ano passado e que escreveu aquele post no Blog está bem satisfeito.

O que está aqui na frente do computador, por outro lado, está pensando "foi bom, mas eu poderia ter feito melhor. Tenho que nadar de forma descente, menos estúpida e fazer mais força no pedal para ficar longe dos pelotes. Dava para ser 2:15!!!!!"

Esse lado critico pode ser bom para a gente não se acomodar, sentar em cima das metas alcançadas e achar que agora pode comer pururuca com torresminho...;-))))

Mas as vezes parece uma maldição - nada, nunca está bom!